Uma camisa qualquer
Existe uma espécie de paciência que se parece muito com um lugar seguro. A gente aprende a oferecer novas chances, a encontrar justificativas para as falhas dos outros e a acreditar que, talvez, amanhã as coisas sejam diferentes. Eu sempre fui esse lugar. Aquela que acolhe o erro, que recolhe os cacos, que abre a porta mais uma vez, mesmo depois de ter jurado que aquela seria a última. Tenho uma facilidade quase absurda para perdoar quem amo, como se o afeto fosse uma borracha capaz de apagar qualquer coisa.
Tenho esse defeito bonito, ou essa tristeza disfarçada de virtude, de sempre encontrar uma fresta por onde deixar a luz entrar, mesmo quando já não há ninguém tentando abrir as janelas. Talvez seja por isso que demoro tanto para ir embora. Porque sempre encontro alguma coisa para salvar, algum motivo para ficar, alguma versão em que ainda consigo acreditar.
O que quase ninguém percebe é que até os lugares mais seguros têm rachaduras. Elas começam pequenas, quase invisíveis, escondidas sob tapetes que estendemos para não precisar olhar para o estrago. Uma palavra atravessada, uma ausência disfarçada de distração, uma promessa esquecida, uma delicadeza que deixou de existir. Nada disso parece suficiente para partir, então eu fico. Eu compreendo, relevo, perdoo. E, enquanto você acredita que tudo continua no lugar, alguma coisa em mim vai aprendendo a ocupar menos espaço ao seu lado.
Até que um dia você vai vestir uma camisa de uma cor de que eu não vou gostar. Talvez seja azul, talvez seja amarela. Uma cor qualquer, escolhida sem pensar muito, numa manhã que vai parecer igual a tantas outras. Você vai abotoar a camisa diante do espelho, ajeitar a gola, talvez perguntar se ficou bonita. E eu vou olhar para você como olhei em tantas outras manhãs. Só que, dessa vez, alguma coisa será diferente. Dessa vez eu vou fazer as malas, encaixotar minhas coisas e te deixar.
Você talvez passe dias tentando entender o que uma camisa pode ter feito de tão grave. Vai procurar algum significado escondido na cor, recordar se houve uma discussão naquela manhã, se eu estava estranha, se disse alguma coisa que você não percebeu. Vai pensar que enlouqueci, que fui injusta, que não se abandona alguém por tão pouco. Talvez até conte essa história a outras pessoas, como quem apresenta uma prova da minha insensatez. Só que você nunca vai encontrar uma resposta. Porque não foi a cor da camisa.
Mas a camisa será apenas a última coisa que meus olhos encontrarão antes de entenderem aquilo que meu coração já vinha tentando dizer há muito tempo. E talvez seja justamente por isso que você nunca compreenda. Porque, enquanto você se lembrar da cor, eu me lembrarei de tudo o que veio antes dela.
Talvez a parte mais triste da nossa história seja que você nunca saberá exatamente o momento em que me perdeu. Talvez siga contando essa história como a insanidade de alguém que foi embora porque não gostou da cor de uma camisa. E eu seguirei sabendo que nunca foi sobre a cor.
por © Thais Diandra
