40 %
Tem quem acorde com a bateria cheia.
Pronto para o dia.
Pronto para as conversas.
Pronto para os imprevistos.
Pronto para tudo aquilo que ainda nem aconteceu.
Eu não.
O dia começa.
E a minha bateria já está em 40%.
Então eu levanto.
Me arrumo.
Vou trabalhar.
Converso com pessoas.
Respondo mensagens.
Escuto demandas.
Resolvo problemas.
E, aos poucos,
a bateria vai descendo.
Não porque aconteceu algo grave.
Não porque o dia foi ruim.
Apenas porque cada coisa
consome um pouco mais do que deveria.
Uma conversa.
Mais alguns por cento.
Uma reunião.
Mais alguns.
Uma responsabilidade inesperada.
Mais alguns.
Alguém que precisa de atenção.
Mais alguns.
E assim o dia segue
enquanto a bateria diminui aos poucos.
30%.
25%.
18%.
12%.
Ninguém percebe.
Porque eu continuo ali.
Falando.
Escutando.
Trabalhando.
Funcionando.
Mas por dentro já existe uma contagem regressiva acontecendo.
Até que tudo começa a pesar.
Os sons.
As palavras.
As pessoas.
Os pensamentos.
A própria presença.
Como se cada estímulo
exigisse uma energia que já não existe mais.
Então eu volto para casa cansada.
E não é um cansaço de quem correu.
Não é um cansaço de quem carregou peso.
Não é um cansaço que se explica.
É diferente.
Mais profundo.
Mais silencioso.
Mais difícil de traduzir.
Um cansaço que parece ocupar
cada parte do corpo.
Até que a bateria finalmente chega ao zero.
E tudo o que resta
é a necessidade de desaparecer
do mundo por algumas horas.
por Thais Diandra
